Daniel Paixão
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Coluna

Papudiskina

Papudskina - 14 de junho de 2019

Papudskina - 14 de junho de 2019
Publicado em: 14 de Junho de 2019

As revelações bombásticas do The Intercept, com vazamentos obtidos provavelmente por ação de hackers viraram trendingtopics nas redes sociais. De prático,porém, essas revelações voltaram a provocar briga de torcidas entre os que consideram o juiz Moro um Herói Nacional e os que o consideram como o Traidor da Pátria, o responsável por colocar Lula, um inocente, na cadeia .
É possível ficarmos isento em tudo isso e não nos aliarmos nem aos que torcem pela Lavajato e nem pelos que querem que seja tudo anulado, os corruptos postos em liberdade e prontos para voltar aos crimes, agora com a complacência do Judiciário?
As revelações, temos de admitir, abalam as estruturas da Lavajato, pois revelam, no mínimo, resvalos antiéticos nessas conversas. Os procuradores e o próprio Moro, se é que essas conversas realmente não foram montagens falseadas pelos hackers, vacilaram. Disseram coisas que não deveriam dizer, pois os trechos dessas conversas reveladasdão margem a dúvidas e, sob o guarda-chuva da Justiça, em caso de dúvidas, a balança deve inclinar-se para o réu.
Estamos, então, diante da possibilidade de anular tudo e voltarmos à época em que o PT estava no Poder e enfiou o pé na jaca e passou a saquear o país, a começar pela Petrobrás e outras estatais, além de receber propinas de empreiteiras de todo o país?Não! Não dá para retroceder. Os desvios, se existiram por parte de procuradores e o Juiz Sérgio Moro, foram de natureza ética, mas não tramaram para colocar inocentes na cadeia. Os condenados, ficou provado, roubaram os cofres da nação. Uns, agiram diretamente, recebendo propina e se enriquecendo ilicitamente. Outros, de forma passiva, sabiam de tudo e não agiam para coibir as ações criminosas.
A esquerda vê nessas revelações uma grande oportunidade para livrar Lula da cadeia e trazê-lo de volta ao centro dos debates políticos. Mas os mesmos que agora caem furiosamente contra a Lavajato sabem que, com um pouco de coerência, é impossível anular os seus efeitos e o bem que Moro e a Lavajato fizeram ao país ao revelar um esquema poderoso de corrupção e quebrar ao menos alguns de seus tentáculos.
Anular a condenação de Lula seria um contrassenso diante de todas as provas de que ele se beneficiou de propinas da Petrobras pagas por Odebrecht, OAS, etc. Pouco importa se o apartamento está diretamente no nome dele. Pouco importa se o sítio de Atibaia está no nome dele. O que está muito claro é que ele, como ex-presidente, foi beneficiado através desses imóveis. O caso do Triplex é emblemático. Embora não se possa dizer com 100% de precisão de que o imóvel seja dele, também é impossível negar que seja dele. O bicho tem cara de gato, mia, bebe leite e come ração. Está difícil afirmar que seja um cachorro porque cachorro não mia. Logo, está mais para gato do que para cachorro.
As revelações do The Intercept não dividiram o Brasil em dois, porque o país já estava dividido. De um lado, a esquerda barulhenta que quer destruir a Lavajato a qualquer preço. De outro lado, os que defendem o legado da Lavajato que colocou alguns corruptos na cadeia, sabem que não é possível retroceder sem colocar o país no caos institucional e jurídico.
Está claro que Sérgio Moro não é herói nacional, embora a turba, cansada de tanta corrupção, assim o tenha adotado. Nem ele nem DeltanDallagnol são mocinhos, mas também não são bandidos. Agiram dentro da lei, embora como seres humanos, também cometeram aqui ou ali algum deslize. Deslizes éticos, contudo, não invalidam o trabalho sério e criterioso que fizeram.
Querer se aproveitar dessas revelações para anular tudo e dizer que todos os presos nessas operações são presos políticos é canalhice. Não próspera também a tese de que os magistrados e procuradores agiram apenas por conveniência política embora todos nós, como cidadãos, somos políticos na essência. 
Se a motivação fosse política, como explicar o fato de que Lula, o preso mais poderoso, e outros igualmente importantes no ranking político e social, não conseguiram reverter, no todo, suas condenações em um Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal cujas nomeações, em sua maioria, são decorrentes da época em que o PT estava no poder? Lula e Dilma escolheram para o STJ e STF pessoas afinadas com a ideologia esquerdistas e nem assim, uma vez na alta corte do poder, eles se corromperam. Embora um ou outro tenha agido como militante de esquerda, a maioria julgou de acordo com os fatos elencados no processo.
Por fim, o que resta de todas essas revelações é que elas servem, sim, à narrativa de esquerda, mas não servem para invalidar todo o legado da Lavajato. Se o STJ ou o STF anular todas as mais de 150 condenações com base nesses diálogos, então o país retrocederá décadas. Não podemos abrir mão do que o país conquistou com a Lavajato. Posturas devem ser corrigidas daqui para a frente e os magistrados devem se conscientizar de que é perigoso a interação entre eles via redes sociais. Não podemos, contudo, sermos hipócritas: o que se conversa privativamente em grupos de amigos ou em grupos fechados de redes sociais quase sempre foge ao que se convenciona chamar de “politicamente correto”. Só que, se em vez de revelar apenas o que lhe interessa, o Intercept também interceptasse conversas e diálogos dos advogados de políticos do PT veriam quanta sujeira haveria nessas interações. 

 



Fonte: Redação
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