Daniel Paixão
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O Brasil pós manifestações do próximo dia 26

O Brasil pós manifestações do próximo dia 26
Publicado em: 24 de Maio de 2019

Foram pacíficas, ordeiras e democráticas as manifestações do dia 15 de maio contra os contingenciamentos no Ministério da Educação. A maioria dos manifestantes, obviamente, eram alinhados com a oposição barulhenta, aquela que a todo custo quer destruir um governo recém empossado. Não se pode dizer, contudo, que as manifestações fugiram aos padrões que se espera dos movimentos democráticos.
Agora, talvez como resposta a essas manifestações, grupos de apoiadores a Jair Bolsonaro prometem ir às ruas no próximo domingo, 26 de maio. Espera-se dos mesmos que igualmente não fujam aos padrões democráticos. Quaisquer que sejam as bandeiras a serem defendidas, elas precisam estar ajustadas com os valores democráticos, respeitando-se as instituições. É preciso cuidado para que a indignação dos manifestantes não se transforme na marcha da insensatez, que venha prejudicar ainda mais o país, sua economia e sua governabilidade, o que afetará principalmente os mais pobres e os milhões de desempregados que anos de irresponsabilidade fiscal produziram.
Logo que surgiram as primeiras postagens nas redes sociais vimos um acirramento dos ânimos entre os que se opõem a esse governo e aos seus apoiadores. Pelo lado dos movimentos de esquerda, há um esforço tremendo em tentar desmobilizar quem quer ir às ruas. A mídia, principalmente a mais engajada com o pensamento de esquerda, diz que é um erro os apoiadores de Bolsonaro participarem dessa mobilização. Ora, mas cabe aqui uma pergunta: se vivemos sob a égide da democracia não podem os cidadãos decidirem se, e quando, vão às ruas para protestar, do jeito que quiserem, e defenderem as bandeiras que quiserem? Logo, se tem grupos que saem às ruas contra a reforma da previdência, contra os contingenciamentos de recursos na educação e em outras áreas, também não seria natural esperar que também hajam quem esteja disposto a protestar por outros motivos?
Os que dizem que as manifestações de 26 de maio não devem acontecer, alegam que entre os manifestantes existam pessoas dispostas a defender bandeiras como o fechamento do Congresso Nacional, Fechamento do Supremo Tribunal Federal, etc. Eu imagino que a Constituição Federal, ao garantir liberdade de expressão, também garante aos cidadãos vocalizarem essas suas opiniões de que o Congresso e o Supremo devem ser fechados. Em outras palavras, o que não pode é haver violência e atos de vandalismos contra quaisquer que sejam as instituições, sejam elas do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. Expressar a opinião de revolta contra o Congresso e o Supremo pode. O que não pode, em hipótese alguma, é transpor a barreira da opinião.
Quem opina que o Congresso Nacional e o STF devem ser fechados deve ser visto com o mesmo olhar daqueles que defendem a aplicação da pena de morte no Brasil. Quem é contra esses argumentos, deve contrapor-se a essas e tentar convencer a maior parte da sociedade de que isso não é bom para o país.
Da mesma forma que argumentos bem fundamentados devem dissuadir os que se lançam na aventura de defender a pena de morte, também são com bons argumentos que devemos mostrar à sociedade que, apesar de tantos problemas, a divisão tripartite do poder em um país ainda é o melhor caminho.
Não dá para governar tendo apenas o Poder Executivo, pois isso acentua o risco de alguém, com ideias radicais, agir como um ditador, de forma a impor sua vontade pela força. Precisamos do Legislativo como contrapeso à vontade do executivo. Também precisamos do Judiciário para fazer com que as leis, criadas pelo Legislativo e sancionadas pelo Executivo, sejam respeitadas e haja a harmonização dos poderes.
Se as manifestações, quando se respeitando a lei e a ordem, são naturais, por que tanto temor na mídia e entre os opositores ao governo Bolsonaro de que ela possa se transformar em algo ruim para o país? O temor, pelo que se percebe, é que o atual presidente realmente tenha condições de colocar milhões de apoiadores nas ruas. Se isso acontecer, dizem, o atual mandatário pode sair fortalecido e aspirar radicalizar posições contra o Congresso e contra as demais instituições que queiram obstar-lhe o caminho.
Penso que as mobilizações em um país são normais, mas temos de cobrar dos organizadores moderação e respeito às vias democráticas. Não se pode permitir que simples manifestações populares acabem descambando para a violência e ameacem a estabilidade social.
Sobre radicalização, quem primeiro deu o pontapé inicial foram as esquerdas (no plural mesmo, pois temos as variações como centro-esquerda e extrema esquerda). Agora, essas mesmas esquerdas, que não assumem nunca uma postura de mea culpa, teme que as direitas também partam para a radicalização.
A origem dessas manifestações do próximo dia 26 é a percepção de muitos dos que votaram em Jair Bolsonaro de que ele está sendo boicotado pelo Centrão e por outros organismos do país. Essa gente que quer ir às ruas no próximo domingo está indignada porque percebe um Congresso que pretende sufocar o governante que eles elegeram. Há uma percepção de que o governo vem sendo chantageado pelo Congresso e até por parte de alguns membros do STF.
Enfim, esperemos no que vai dar essa mobilização. Há riscos para a oposição e para a situação. Se muita gente for às ruas, Bolsonaro, que está sufocado, pode ter um alívio e contar com um pouco mais de boa vontade do Congresso.  Porém, se as manifestações forem um fiasco, Bolsonaro pode sangrar ainda mais. Uma coisa, porém, é preciso estar muito clara. Congresso, STF e Executivo vão ter de se reposicionar após as manifestações de domingo. Vão precisar costurar um pacto nacional pela governabilidade, com ou sem Bolsonaro. O que não dá é o país continuar paralisado.

 



Fonte: Daniel Oliveira da Paixão
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