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Olhos para a Justiça - Carlos Roberto Rosa Burck

Coluna

AMOR E OUTRAS DROGAS

Carlos Roberto Rosa Burck é Juiz de Direito em Rondônia desde 09 de abril de 1999. Atualmente é titular da 1a. Vara Criminal de Cacoal
Publicado em: 19 de Setembro de 2018

O tema de hoje não é jurídico, ou é, vai saber, não é? O Direito se  ocupa da coexistência de relações humanas. Humanos são complexos e as teias que criam estão sempre na frente de normas, regras, definições e estereótipos. Teimo, assim, em gostar de gente.

Não acredito que possam ser conciliados ou mediados conflitos humanos por máquinas ou seres que são forçados a se portar como se fossem (exigência quase desumana de produção de números). Creio piamente que a avalanche de processos judiciais seja só sintoma do grande mal da modernidade: o não amor e suas variantes, como a intolerância e a indiferença. Não falo aqui do desamor como seu contrário, o ódio, mas, principalmente do que identifico como a endemia do desinteresse pela profundidade do outro e da riqueza insubstituível que só a convivência física proporciona. E a questão não é filosófica ou de mero desejo de voltar às priscas eras em que cresci, na qual, sem falar e interagir fisicamente, era impossível preencher o tempo.

Aviso: estamos sob ataque de armas químicas e ideológicas para não interagirmos presencial e profundamente. Como afirmou o recém falecido Zygmunt Baulmant vivemos sob o jugo da modernidade líquida: “A modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos – um amor líquido. A insegurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos.” Manter os relacionamentos em banho maria, sejam profissionais e amorosos é, sem equívoco, a regra de nossos tempos. Daí a superficialidade de todos os relacionamentos humanos. As raízes disso? Pois é. Possivelmente centenas de fatores.

Vou tentar me ater a dois aspectos que me chamam a atenção: a proliferação da utilização de antidepressivos e a intermediação do contato humano por máquinas como limitação quase insuperável. São novos códigos de comportamento. Exemplo: ligar e cambiar vozes nem pensar. É muito pessoal, quase proibido. Tecla-se desesperadamente. Quando muito mensagens gravadas.

Quais os efeitos disso?  Teremos perdido a capacidade de nos expor às interações presenciais ou estamos apenas inebriados, dentre outros fatores anestesiados por drogas lícitas e máquinas símbolos de status? É possível, neste estágio, não pensar que estamos programados para a paralisia emotiva, para a perseguição à qualquer custo de um modelo único de beleza, convenientes ao consumo e preguiça à crítica? Auto-ajuda, auto-estima, selfie não são palavras que não refletem o egoísmo propício à manutenção desse status quo? O compartilhamento da imagem supre o da (con)vivência? Eis as questões irrespondíveis.

Para o título da coluna de hoje tomei emprestado o título de um filme de 2010, estrelado pela Anne Hathaway. Fiquem tranquilos: não vou dar o “spoiller”. Nem é, assim, um grande filme. Mas lembrei do pano de fundo do romance: a briga entre as empresas farmacêuticas para convencer os médicos a receitarem e, assim, venderem-nos as drogas da “felicidade”, os primeiros anti-depressivos realmente eficazes, capazes de evitar oscilações de humor e aquela sensação do nada, sintoma típico da doença. Era a briga entre as drogas batizadas de Prozac e Zoloft. Nos últimos cinco anos dobramos a compra de antidepressivos no Brasil. Não estou lá em 2010. A coisa piorou muito. 

Perdoem-me pelo ingresso em assunto fora dos meus limitados conhecimentos. Não tenho a menor pretensão de ser técnico. Sou só um palpiteiro que sofre dos males que critico. Mas, em linhas gerais, diferentemente do que se pensa, a depressão não é causada pela ausência de serotonina no cérebro. E os antidepressivos não criam essa substância, apenas não deixam que se degrade a que o corpo produz naturalmente. Os antidepressivos modernos são, em resumo, inibidores seletivos de recaptação de serotonina, ou, abreviadamente, ISRS. E, diga-se de passagem, os estudos demonstram que  os ISRS são receitados mais às mulheres que aos homens. O efeito marcante dos ISRS é manter controlados a irritabilidade, o sono e o humor, dosando o fluxo da serotonina.

Se, de um lado, a serotonina nos ajuda muito na não flutuação do humor e da sensação de total indiferença para conosco e com todo o resto, o problema é que seu fluxo constante tem como consequência certa anedonia, ou seja, a falta ou perda da capacidade de sentir efetivo prazer e/ou satisfazer-se. Na minha experiência, os ISRS suavizam os sentimentos, para o lado ruim, amenizando o efeito “tatu”, consistente naquela vontade de cavar um buraco e manter-se lá, mas, nos estabilizando, criam uma sensação artificial de saciedade, imobilizadora, impeditiva muitas vezes da criatividade, da aventura e de nos entregarmos às sensações que a vida está aí para nos alcançar. Como a serotonina torna a vida previsível,  tendemos a nos acostumar com a sensação colateral de estabilidade, que nos faz abdicar da procura do convívio com os humanóides. É palpável que os ISRS ambicionam nos conformar com a realidade como ela é. A aceitação de tudo é boa e ruim. Não cataliza o sofrimento, mas nos afasta da luta.  

E a pior parte é que a serotonina e a dopamina não se gostam. Quando tem muito de uma tem pouco de outra. E a dopamina, ao contrário da serotonina, nunca é demais. Deixa-nos criativos, inquietos, sensíveis, comunicativos, sociáveis e, ao mesmo tempo, é auto-sustentável. Se alimenta do que produz. Quando mais a estimulamos convivendo, mais aproveitamos de suas benesses. É a promessa de um ciclo de bem estar que se espraia a vários aspectos da vida: amigos, trabalho, relacionamentos afetivos, tudo que envolve gente de verdade, falando, interagindo, presencialmente, que fique claro. A sexualidade verdadeiramente prazerosa, segundo recentes pesquisas, é fruto da ação combinada de dopamina, opioides e ocitocina, todas substâncias incapazes de serem sintetizadas e, assim, vendidas em farmácia (exceção, dizem, da ocitocina, pois um spray nasal para ajudar na lactação poderia ou foi usado para provocar os efeitos para outras finalidades).

Quiçá a possibilidade exclusivamente feminina de manutenção de níveis autos de dopamina no intercurso, algo que, nós, homens, somos desprovidos muito rapidamente após o gran finale, seja uma das causas de desencontro de nossos timings.   Não parece haver dúvida, contudo, que a dopamina é fonte decisiva de qualidade de vida ativa. Dentre outras maravilhas, é, digamos, um acelerador de feedback entre cérebro e o órgão sexual feminino. O mecanismo de atração e libido feminina é bem mais complexo que o masculino. Elas, diferentes da maioria de nós, não são meramente visuais. As informações aguçadas pelos sentidos são trocadas rapidamente lá de cima com lá embaixo e se catalizam, pelo que, por isso, as mulheres são bem mais seletivas para a predisposição afetivo-sexual, mas recompensadas pela mãe natureza com êxtases mais duradouros.

E, friso, ainda há os opioides naturais e a ocitocina, a substância do carinho, tudo disponível para quem convive socialmente, tem amigos, conversa, extrai o prazer da vida vivida de corpo e alma. Afeto e sexo são fontes incomensuráveis de dopamina e ocitocina, que, por sua vez, empurram-nas para disposição e rendimento físico, prazer no trabalho, vivência fecunda entre amigos, em um processo de constante renovação.

A serotonina nos faz semi-infalíveis, cheios de certezas. A a dopamina nos impele para a experimentação. Quando, por exemplo, nos apaixonamos, somos quase somente dopamina, opiáceos e ocitocina. Isso explica o humor beligerante, o ciúme, a desproporção que nos ocorre. É a baixa serotonina. Na paixão a dopamina dá uma surra na serotonina.

Enfim chego ao ponto: dias piores de convivência terrena virão. O vício na previsibilidade, inanição e imobilismo tão caros ao mundo do consumo e a ojeriza à mínima possibilidade de sofrimento tem encontro marcado com o apocalipse.

Desgraçadamente, a vida virtual, confortavelmente intermediada por smartphones, laptops, mesmo em tecladas infinitas, não produz dopamina e ocitocina. E, paradoxalmente, tomando baldes de serotonina, nos quedamos nas redes sociais, nos digladiando politicamente, com certezas divinas, desprezo pela opinião alheia e ódio ao diferente, pois nos bastamos. Do umbigo para fora nada nos falta que não seja material.

E, nesse cenário, passamos em tese mais “satisfeitos” sós, na frente de muitas mídias, com a convivência restrita ao virtual, frívola, distante. Imagens e relações mediante anteparos são preferíveis à incerteza das sensações táteis, olfativas, degustativas e com o encantamento da voz do outro ou até com a nossa própria (Se eu não gostar do que falo, quem gostará?) A recompensa e a terra prometida são as curtidas, inversamente proporcionais à profundidade e o número de caracteres empregados. Não tem até aquela brincadeira no Facebook do texto longo para revelar que ninguém lê nada até o fim. É a inanição intelectual no estado puro. E não existe risco de qualquer maior humanidade, tais como dor, amor profundo, amizades sinceras, solidariedade, envolvimento político, social, etc.

Frente a tela estamos diante de tudo e de todos, ávidos pelo consumo e pela docilidade, refratários à agudização dos dilemas. Na virtualidade o afastamento depende de uma tecla. É indolor. Dá até para dizer que foi a bateria ou a má qualidade do sinal.

Não vejo, porém, como não dar meia volta. O combustível a perseguir para o futuro em coexistência são os oceanos de dopamina e ocitocina que produziremos na vida real, isto é, a não teclada, não “registrada” por selfie, e armazenada na memória da cachola. Sei que frente a frente não dá para bloquear “de boa” ante a primeira frustração ou contrariedade. Na vida de corpo presente nos expomos a tudo e muita coisa dói. Há desprazeres, mas os prazeres... 

Não é à toa a descrença na conversa, no afeto e no sexo. Mas  é perceptível que as pessoas estão mais frustradas do que nunca com suas vidas, sobretudo com a virtual. Não conseguem, entretanto, se desprender dessa imposição maquiavélica entre a indisposição de produzir química boa e o consumo de imagens. Compartilha-se o fastio no afã de likes.

Substituíram, sem meu consentimento (“kkkkkkkk” ou “rs”, fica a critério), o encontro no café da esquina para falarmos de tudo, por emojis ininteligíveis, pelo menos para mim.  Aliás, cogito não possa gostar de alguém que nunca esteve entre mim e um café. É na conversa com cafeína que eu sei quem é quem. O fim do café é sempre uma incógnita. Pode vir outro ou não. 

Tenho que estar atento. Não posso me render. Me policio para não  ter um dia que lamentar ter sentado em uma cafeteria na mesa do lado da Uma Thurman e nem percebê-la, por estar lendo a coluna “senso incomum” do Lenio Streck no Conjur. Deus me livre da tentação de filmar o show e não curtir cada sílaba da Joss Stone cantando “I put a spell on you”, de pés descalços e com a pashmina pendurada na haste do microfone.

Nós, os “da antiga”, somos 4D e  não dois dedos. Aliás, eu teclo com um só. Somos escassos, mas estamos por aí ainda escrevendo “porque” e “também” com todas as letras e até com acentos. Teimamos em decifrar pessoas e polemizar por tudo. O “meu medo de ter medo de ter medo” é me afastar de gente e gentileza. Até de gentalha e da velhacaria tête-à-tête eu sinto falta. Mil vezes melhor que na sorrelfa do “Whats”. Prefiro crer que mais vale uma tentativa de empatia in loco ou de louco, que todos os filtros do Instagram em meu favor.

Não tenho no meu feed o primeiro beijo com a primeira namoradinha Marilda, mas lembro que foi no Cine Cassino, em Rio Grande. O filme era “Justiça para todos”, o ator era o Paul Newman. O cinema era marrom, com o letreiro branco. Tinha balas “azedinhas” e “mentex” para comprar na portaria. Para dar aquele beijo tive que, tais como os da minha geração, disfarçar a aproximação dos dedos por trás do encosto, centímetro a centímetro, até abraçar a menina. Depois peguei na mão. Vivi. E  hoje continuam dentro de mim aqueles momentos, como tantos outros que não parei para “registrar”. Se tivesse feito o “selfie” não teria fluído. Que alegria que me dá não ter tecnologia naquela época. Será que não estamos sempre interrompendo algo que vale a pena viver sem cortes?         



Fonte: Carlos Roberto Rosa Burck
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